Poleiro Elétrico

O booklog eletrônico do Arara

Adeus, Poleiro?

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 27/08/2012

O problema estava na forma.

Eu tinha perdido a vontade de escrever no Poleiro. Não que eu tenha perdido a vontade de ESCREVER… Mas eu tinha perdido a vontade de escrever especificamente no Poleiro.

Foi uma quebra no embalo. Eu estava acostumado a escrever uma resenha a cada 15 dias, mais ou menos, e isso dependia, é claro, de eu ler um livro inteiro nesse período. Em média, a conta dá certo, mas o problema não está na média, e sim no desvio-padrão: alguns livros levam mais de duas semanas, alguns menos. Alguns MUITO MAIS. Foi o caso de A Revolta de Atlas, que é maior que qualquer volume d’A Canção de Fogo e Gelo, e três vezes mais denso em matéria de conteúdo. Isso sem contar continuações. Não há muito que dizer sobre o terceiro livro de Guerra dos Tronos se você já falou do primeiro. Mas isso foi só parte do problema.

Outra parte do problema foi a mudança de ambiente. Casei, mudei de casa, mudei de rotina. O Xbox que eu comprei não tem NADA A VER com isso. Mas as responsabilidades mudaram, a rotina noturna mudou. Levei um tempo pra voltar a entrar nos eixos e pensar em fazer qualquer coisa produtiva. Eu só consigo ser produtivo quando estou em paz comigo mesmo. Mas isso também foi só parte do problema.

O problema, eu acabei decidindo, estava na forma do Poleiro.

Eu escrevo uma resenha de um livro que eu li recentemente no Poleiro a cada 15 dias. Essa é a forma que eu decidi manter logo nos primeiros posts. Tomei essa decisão com o intuito de me forçar a escrever com certa frequência, me ensinar a cumprir deadlines e, com sorte, a escrever decentemente. Ouso dizer que funcionou, porque eu sempre consegui cumprir meus prazos quando eu já tinha um livro lido pra escrever, e eu sinto menos vergonha das resenhas recentes do que das resenhas mais antigas. Mas essa forma também servia a outros propósitos.

Um segundo propósito era a criação de expectativas. Humanos são biologicamente adaptados para perceber padrões muito facilmente. “Fool me once, shame on you. Fool me twice, shame on me”, já dizia o adágio. Consciente ou inconscientemente, seu cérebro detecta e registra esses padrões o tempo inteiro. Então se você já leu algo do Poleiro, sabe o que esperar de um novo post: vou dar um contexto geral sobre a obra, comentar o enredo por cima, discutir algum ponto central, dar minha opinião. Funcionou bem. Até demais.

Teria funcionado melhor se eu fosse um bom escritor, mas eu ainda não sou. E eu não tenho estilo, carisma ou insight pra escrever algo divertido ou interessante seguindo essa fórmula. Por outro lado, eu não podia abandonar a fórmula do nada e acabar quebrando as expectativas e o próprio plano que eu tinha traçado. Quando me dava na telha de escrever algo fora da receita de bolo, eu geralmente colocava na seção de divagações, ou em outros sites. Imaginem só quando eu percebi que os artigos que eu escrevia fora dessa fórmula eram os mais interessantes de todos.

Meu objetivo não era a fama, porque eu rio da cara de qualquer pessoa que tenta ser famoso no Brasil falando de livros velhos. Meu objetivo era aprender a escrever e fomentar discussões interessantes. Mas o meu plano, a forma que eu escolhi para alcançar esse objetivo contrastava com o objetivo: era uma forma para atrair leitores e manter o interesse deles, em detrimento de um conteúdo mais profundo. Era uma forma fechada que não permitia ousadia, e não há como aprender sem se arriscar a errar. Era o caminho claro e seguro que me levou à estagnação.

E então eu simplesmente parei de escrever no Poleiro. Não parei de ler, e nesses três meses desde o último post eu li 5 ou 6 livros, seguindo meu ritmo normal. Por um tempo, eu nutri a ideia de deixar o site como está, para deixar a entender que eu esteja sendo afetado pela mesma moléstia que aposentou Joe Gould e Joseph Mitchell.

Mas hoje eu tive um sonho. Sonhei com algo diferente. Então que se exploda o mundo que eu vou tentar algo diferente. E pro inferno com o caminho claro e seguro. Viva Muad’Dib.

 

 

 

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[LIVRO] My Ears are Bent, de Joseph Mitchell

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 28/05/2012

Livro: My Ears are Bent

Autor: Joseph Mitchell

Editora: Vintage

Um amigo meu certa vez me disse que era possível medir a fama de um autor só de olhar uma capa de um de seus livros: a fama do autor era proporcional ao tamanho do nome dele, chegando ao extremo de ser maior que o próprio título do livro. Claro que isso é mais uma manobra de marketing do que qualquer outra coisa, mas a verdade é que certos autores são mais interessantes que suas obras – que é o caso de Joseph Mitchell.

Joseph Mitchell era um jornalista nova-iorquino que passou boa parte de sua carreira escrevendo para o The New Yorker, nos anos 30. Por anos, ele manteve uma coluna onde escrevia sobre as pessoas que habitavam a Grande Maçã – mas se outros escritores acompanhavam a vida da high society, Mitchell dedicava seu interesse ao outro lado do espectro social. Suas colunas falam sobre as dançarinas de cabaré, os pregadores de rua, os mendigos, os loucos. My Ears Are Bent é uma coletânea que reúne alguns dos seus primeiros trabalhos, e mostra a capacidade do jornalista de transformar qualquer um na pessoa mais interessante do mundo, ao menos por alguns momentos. Leia o resto deste post »

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[GIBI] Bem-Vindo à NHK, de Tatsuhiko Takimoto e Kenji Oiwa

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 19/04/2012

Gibi: Bem-Vindo à NHK

Autores: Tatsuhiko Takimoto (enredo) e Kenji Oiwa (arte)

Editora: JBC

Que os quadrinhos são uma forma de expressão interessantíssima, acredito que todo mundo já sabe. Hoje em dia, com o avanço da tecnologia, é possível fazer filmes que retratem fielmente o universo dos quadrinhos, mas é um investimento imenso comparado ao necessário para fazer um gibi – papel, caneta e imaginação – e enquanto a produção de um filme exige uma equipe imensa por vários e vários dias e a interferência de sabe-se lá quantos acionistas e investidores, a produção de um gibi exige algumas poucas pessoas por um período bem menor de tempo, permitindo que os autores se envolvam mais pessoalmente com a obra e lhes confiram mais profundidade. Leia o resto deste post »

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[LIVRO] John Gone, de Michael Kayatta

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 03/04/2012

Livro: John Gone

Autor: Michael Kayatta

Há quem critique a nova onda da distribuição digital de livros, argumentando que nada vai substituir o cheiro de um livro novo, a praticidade de se poder ler sem se preocupar com condições adequadas de bateria e iluminação, ou ainda que é impossível decorar uma estante na sala com livros feitos de bits e bytes. Não discordo de nenhuma delas, mas há outras vantagens deveras mais interessantes: custos menores de produção e distribuição, maior repasse de lucro para o autor. Em especial, por não precisar pagar uma tiragem de milhares de cópias, um investimento arriscado em autores iniciantes, o pequeno escritor não é obrigado a ceder a pressões editoriais para seguir o que está na moda e pode escrever uma história sincera. É basicamente essa a impressão que John Gone me passou: é o livro que Mike Kayatta queria ter lido quando era adolescente, e é disso que ele tira toda sua força e charme. Leia o resto deste post »

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Por que George R. R. Martin é melhor que J. R. R. Tolkien

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 04/03/2012

Eu terminei de ler Guerra dos Tronos ontem, não por coincidência um dia depois do meu Kindle novo chegar. Meu Kindle 2 morreu lá pelos três quartos do livro, e eu tentei retomar a leitura pela versão brasileira, sem sucesso. Era uma tarefa de paciência ter que pausar a leitura a cada Correrrio para associar ao seu respectivo Riverrun, ligar cada King’s Landing ao seu Porto Real, e eu não estava muito disposto a me estressar com meu entretenimento. Só depois de meu Kindle chegar que eu devorei o resto do livro em duas noites.

Como de costume, eu ia escrever sobre o livro aqui no Poleiro, mas a perspectiva não me empolgava nem um pouco. O que dizer de um livro que praticamente todo mundo já conhece? A maioria dos meus amigos interessados na série já estão livros à frente, e bater em cavalo morto seria um exercício fútil e desnecessário. E foi pensando em alguma maneira de abordar o conteúdo do livro de uma maneira interessante que eu acabei cruzando olhares com meus volumes de Senhor dos Anéis, na estante, pegando poeira.

O Senhor dos Anéis é um marco na literatura de fantasia medieval, certamente um dos livros mais importantes do século XX, mas, como discuti na microrresenha sobre Ulysses, ando meio cético quanto ao valor de uma obra enquanto marco histórico: ela tem que ser agradável e relevante ao mundo atual, e não celebrada por ter sido interessante algum dia, uma hipocrisia tão absurda quanto fazer luto pelo Wando no Facebook. E Senhor dos Anéis é um exemplo clássico de um livro que perdeu a relevância no mundo atual, porque seu ponto forte – suas idéias inovadoras e seu extenso mundo imaginário – há muito já se incorporaram na cultura mundial, enquanto suas características literárias são sabidamente abaixo da média, uma narrativa lenta e lodosa com manias dispensáveis.

Resumindo: ao terminar de ler Guerra dos Tronos, descobri que não gosto mais de Senhor dos Anéis, ou pelo menos não dos livros. E vou tentar explicar o porquê.

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[GIBI] Achados e Perdidos, por Damasceno, Garrocho e Ito

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 15/02/2012

Título: Achados e Perdidos

Autores: Damasceno, Garrocho e Ito

Editora: Quadrinhos Rasos

Disclaimer: HQ, graphic novel, mangá, quadrinhos… Pra mim é tudo GIBI. Favor não apoquentar.

Este review é meio especial pra mim, porque a obra em questão não existiria se não fosse pela minha colaboração. Minha participação foi essencial para que esse gibi tomasse forma e fosse publicado! Legal, não? Pra falar a verdade, não dependeu só de mim, mas de algumas outras centenas de pessoas que decidiram investir nessa empreitada antes mesmo do produto estar terminado – porque esse projeto foi financiado pelo catarse.me, um site de crowdfunding, onde pessoas podem investir em projetos incipientes, pagando os custos de produção e eliminando a necessidade de buscar uma editora ou um fundo de investimentos que acredite na idéia. No catarse.me, os próprios consumidores são os investidores e escolhem o que eles gostariam de consumir. Ainda melhor, a idéia de trabalhar diretamente com o consumidor final dá ao artista uma liberdade difícil de se encontrar no trabalho com grandes editoras, que têm o discutível costume de se intrometer no processo criativo e alterar a obra de acordo com suas pesquisas de mercado e “sensibilidades editoriais”. Leia o resto deste post »

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Limpando a Estante [Parte 2]

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 24/01/2012

Pra completar a série, mais quatro coisas que passaram despercebidas nos posts de 2011 por motivos diversos. No próximo post, voltamos à nossa programação costumeira com uma obra que mal posso esperar pra resenhar!

Ulysses – James Joyce

Podemos calcular o valor de uma obra puramente em sua capacidade de entreter e de causar reflexão ou devemos levar em conta o ambiente e o histórico da mesma? Devemos aplaudir de pé uma performance que não mais agrada o público apenas por sua participação no desenvolvimento do meio? Esse é o meu dilema com Ulysses.

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Limpando a Estante [Parte 1]

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 26/12/2011

Feliz Natal a todos! Este é o primeiro de uma série de posts no qual eu vou “limpar a estante”: falar de livros que li mas que não mereceram um post inteiro, de livros que larguei na metade e de outras coisas que eu eventualmente queria falar.

Hell Screen – Ryuunosuke Akutagawa

Até encontrar a coleção de contos da Penguin Classics, eu não conhecia nada de literatura japonesa, salvo alguns dos nomes mais famosos (Osamu Dazai, Natsume Souseki), e já tinha ouvido falar de Ryuunosuke Akutagawa. Comprei o livreto, crente de que seria uma primeira introdução a um gênero até então totalmente desconhecido.

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[LIVRO] O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 20/12/2011

Livro: O Jogo do Exterminador

Autor: Orson Scott Card

Editora: Devir

Existe um conceito em literatura chamado verossimilhança. É a propriedade de uma obra de convencer seu leitor de que a mensagem que está transmitindo é crível, de causar em seu espectador a suspensão de descrença. É diferente do realismo, pois uma obra pode ser verossímil sem ser realista – e isso se aplica especialmente à ficção científica, onde cenários envolvendo tecnologias muitas vezes impossíveis são aceitos sem problema algum. A verossimilhança é uma característica de suma importância, mas fragilíssima também: basta um deslize e a ilusão de imersão do leitor é quebrada, que coça sua cabeça e pensa: “Puxa, mas isso não faz o menor sentido”. É um dos problemas que eu tive com A Mão Esquerda de Deus e com o começo d’O Jogo do Exterminador. Entretanto, se o primeiro tinha vários outros defeitos que só acentuavam sua má qualidade, O Jogo do Exterminador é bom o suficiente para compensar esse fato. Leia o resto deste post »

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[LIVRO] Dancing with Eternity, de John Patrick Lowrie

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 28/11/2011

Livro: Dancing With Eternity

Autor: John Patrick Lowrie

Editora: Camel Press

Em um gênero dominado por distopias, pela opressão em escala global e universal e pela deterioração das relações e até mesmo dos sentimentos humanos, é difícil encontrar algum livro que faça crer que o futuro seja “bom”. É como se o sistema econômico e social mundial fosse uma máquina instável, pronta para explodir em alguma direção e sem ninguém para tomar as rédeas da situação. Mesmo em um ambiente um pouco menos radical e mais realista, como o Sprawl de William Gibson, temos megacorporações que ocupam cidades inteiras, implantes cibernéticos que desumanizam seus usuários e um clima geral de que os esforços conjuntos de bilhões de pessoas foram um fracasso. E talvez por isso o universo de Dancing With Eternity seja um mundo curiosamente inovador – só por apresentar um universo em que, bem, não é tão ruim assim viver. Leia o resto deste post »

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