O problema estava na forma.
Eu tinha perdido a vontade de escrever no Poleiro. Não que eu tenha perdido a vontade de ESCREVER… Mas eu tinha perdido a vontade de escrever especificamente no Poleiro.
Foi uma quebra no embalo. Eu estava acostumado a escrever uma resenha a cada 15 dias, mais ou menos, e isso dependia, é claro, de eu ler um livro inteiro nesse período. Em média, a conta dá certo, mas o problema não está na média, e sim no desvio-padrão: alguns livros levam mais de duas semanas, alguns menos. Alguns MUITO MAIS. Foi o caso de A Revolta de Atlas, que é maior que qualquer volume d’A Canção de Fogo e Gelo, e três vezes mais denso em matéria de conteúdo. Isso sem contar continuações. Não há muito que dizer sobre o terceiro livro de Guerra dos Tronos se você já falou do primeiro. Mas isso foi só parte do problema.
Outra parte do problema foi a mudança de ambiente. Casei, mudei de casa, mudei de rotina. O Xbox que eu comprei não tem NADA A VER com isso. Mas as responsabilidades mudaram, a rotina noturna mudou. Levei um tempo pra voltar a entrar nos eixos e pensar em fazer qualquer coisa produtiva. Eu só consigo ser produtivo quando estou em paz comigo mesmo. Mas isso também foi só parte do problema.
O problema, eu acabei decidindo, estava na forma do Poleiro.
Eu escrevo uma resenha de um livro que eu li recentemente no Poleiro a cada 15 dias. Essa é a forma que eu decidi manter logo nos primeiros posts. Tomei essa decisão com o intuito de me forçar a escrever com certa frequência, me ensinar a cumprir deadlines e, com sorte, a escrever decentemente. Ouso dizer que funcionou, porque eu sempre consegui cumprir meus prazos quando eu já tinha um livro lido pra escrever, e eu sinto menos vergonha das resenhas recentes do que das resenhas mais antigas. Mas essa forma também servia a outros propósitos.
Um segundo propósito era a criação de expectativas. Humanos são biologicamente adaptados para perceber padrões muito facilmente. “Fool me once, shame on you. Fool me twice, shame on me”, já dizia o adágio. Consciente ou inconscientemente, seu cérebro detecta e registra esses padrões o tempo inteiro. Então se você já leu algo do Poleiro, sabe o que esperar de um novo post: vou dar um contexto geral sobre a obra, comentar o enredo por cima, discutir algum ponto central, dar minha opinião. Funcionou bem. Até demais.
Teria funcionado melhor se eu fosse um bom escritor, mas eu ainda não sou. E eu não tenho estilo, carisma ou insight pra escrever algo divertido ou interessante seguindo essa fórmula. Por outro lado, eu não podia abandonar a fórmula do nada e acabar quebrando as expectativas e o próprio plano que eu tinha traçado. Quando me dava na telha de escrever algo fora da receita de bolo, eu geralmente colocava na seção de divagações, ou em outros sites. Imaginem só quando eu percebi que os artigos que eu escrevia fora dessa fórmula eram os mais interessantes de todos.
Meu objetivo não era a fama, porque eu rio da cara de qualquer pessoa que tenta ser famoso no Brasil falando de livros velhos. Meu objetivo era aprender a escrever e fomentar discussões interessantes. Mas o meu plano, a forma que eu escolhi para alcançar esse objetivo contrastava com o objetivo: era uma forma para atrair leitores e manter o interesse deles, em detrimento de um conteúdo mais profundo. Era uma forma fechada que não permitia ousadia, e não há como aprender sem se arriscar a errar. Era o caminho claro e seguro que me levou à estagnação.
E então eu simplesmente parei de escrever no Poleiro. Não parei de ler, e nesses três meses desde o último post eu li 5 ou 6 livros, seguindo meu ritmo normal. Por um tempo, eu nutri a ideia de deixar o site como está, para deixar a entender que eu esteja sendo afetado pela mesma moléstia que aposentou Joe Gould e Joseph Mitchell.
Mas hoje eu tive um sonho. Sonhei com algo diferente. Então que se exploda o mundo que eu vou tentar algo diferente. E pro inferno com o caminho claro e seguro. Viva Muad’Dib.







Livro: Dancing With Eternity